Marés e Correntes: Fundamentos e Aplicação no Atendimento a Incidentes Ambientais


Conceito geral

As marés correspondem ao deslocamento periódico das águas oceânicas provocado pelas forças gravitacionais exercidas pela Lua e, em menor escala, pelo Sol sobre o planeta. Ao longo da maior parte do litoral, a influência lunar predomina sobre a solar, o que faz da posição da Lua o principal referencial para a previsão do comportamento das marés em determinado local e período. As correntes marinhas, por sua vez, constituem um fenômeno distinto, associado à rotação terrestre, à variação sazonal e às condições físico-químicas da água do mar, como temperatura e salinidade. Já as correntes de maré resultam diretamente do movimento de ascensão e descida das águas provocado pelas marés, manifestando-se com maior intensidade em ambientes costeiros restritos, como canais, estuários, braços de mar e trechos de rios sujeitos à influência das marés.

Finalidade do conhecimento sobre marés e correntes

O conhecimento do comportamento das marés e das correntes permite a previsão de condições de navegação e de deslocamento de massas de água em determinado trecho do litoral. Essa previsão subsidia o planejamento de operações que dependem da altura da lâmina d'água ou da velocidade do escoamento, como a navegação em canais estreitos, a operação de embarcações de pequeno porte e, no âmbito ambiental, a estimativa do deslocamento de substâncias lançadas ao mar em decorrência de um incidente.

Componentes do fenômeno

Marés de sizígia e marés de quadratura

O comportamento das marés varia conforme a fase da Lua. Nos períodos de lua cheia e lua nova, ocorrem as marés de sizígia, também denominadas marés vivas, caracterizadas por maior amplitude entre a preamar e a baixa-mar. Nos períodos de quarto-crescente e quarto-minguante, ocorrem as marés de quadratura, ou marés mortas, nas quais essa amplitude é reduzida. De modo geral, quanto maior a amplitude da maré, maior tende a ser a velocidade da corrente de maré associada, o que reforça a importância de se considerar a fase lunar no planejamento de operações costeiras.

Fontes de consulta

A previsão da altura das marés em determinado porto ou localidade é obtida por meio da Tábua das Marés, publicação que apresenta os horários e valores de preamar e baixa-mar previstos para cada dia. As correntes marítimas, por sua vez, podem ser consultadas nos Roteiros de Navegação e no Atlas de Cartas Piloto, publicados pela Diretoria de Hidrografia e Navegação (DHN), além de guias complementares que descrevem as condições de correntes em trechos específicos do litoral brasileiro.

Regra dos Doze Avos

A Tábua das Marés fornece diretamente apenas os valores correspondentes aos instantes de preamar e baixa-mar. Para se estimar a altura da maré em um instante intermediário, aplica-se a Regra dos Doze Avos, que pressupõe um intervalo de seis horas entre a preamar e a baixa-mar; caso esse intervalo seja diferente, ele deve ser dividido em seis partes iguais. Nessa regra, a variação da altura da maré ocorre de forma proporcional ao longo do intervalo: 1/12 da amplitude total na primeira parte, 2/12 na segunda, 3/12 na terceira e na quarta, retornando a 2/12 na quinta e a 1/12 na sexta e última parte. Essa proporção é válida tanto para o período de enchente quanto para o de vazante, em condições de águas abertas.

Regra do Terço

De forma análoga, a velocidade da corrente de maré também varia ao longo do intervalo entre a preamar e a baixa-mar, ainda que as cartas náuticas apresentem apenas os valores máximos previstos. A Regra do Terço permite estimar essa velocidade em cada uma das seis partes do intervalo, seguindo a proporção 1:2:3:3:2:1 em relação à velocidade máxima: 1/3 ao final da primeira parte, 2/3 ao final da segunda, o valor máximo na terceira e na quarta parte, retornando a 2/3 na quinta e a 1/3 na sexta parte.

Aplicação no atendimento a incidentes ambientais

O comportamento das marés e das correntes exerce influência direta sobre o deslocamento de substâncias lançadas ao ambiente aquático em decorrência de um incidente, como derramamentos de óleo ou de outros produtos químicos. Nesse contexto, a fase da maré e a velocidade da corrente no momento do incidente condicionam tanto a direção quanto a extensão da área potencialmente afetada, o que torna a consulta prévia à Tábua das Marés e aos Roteiros de Navegação uma etapa relevante do diagnóstico inicial da ocorrência. Durante uma maré de sizígia, a maior amplitude e a maior velocidade de corrente associada tendem a favorecer o deslocamento mais rápido do produto lançado, ampliando a área de dispersão em um intervalo de tempo menor. Esse cenário pode dificultar as operações de contenção, uma vez que barreiras flutuantes e outros dispositivos de contenção apresentam eficácia reduzida em condições de corrente mais intensa. Por outro lado, a maior movimentação de água também pode favorecer processos naturais de diluição e dispersão do produto na coluna d'água, dependendo da natureza da substância envolvida. Já durante uma maré de quadratura, a menor amplitude e a menor velocidade de corrente tendem a favorecer a permanência do produto em áreas mais restritas, o que pode facilitar as operações de contenção e recolhimento, especialmente em canais e estuários. Em contrapartida, a menor movimentação da água pode reduzir a dispersão natural do produto, prolongando sua concentração em determinado trecho e, conforme a natureza da substância, ampliando o tempo de exposição de organismos e ambientes locais. A aplicação da Regra dos Doze Avos e da Regra do Terço permite ainda estimar, em qualquer instante durante a resposta à emergência, a altura da lâmina d'água e a velocidade da corrente no local do incidente, informações que orientam decisões operacionais como o horário mais adequado para o posicionamento de barreiras de contenção, o acesso de embarcações de apoio a canais rasos e a definição de janelas operacionais para atividades de limpeza em zonas entremarés. Essas mesmas informações também subsidiam a estimativa de trajetória de manchas ou plumas de contaminantes, contribuindo para o direcionamento de equipes e recursos às áreas com maior probabilidade de serem atingidas.

Conclusão

O conhecimento sobre marés e correntes reúne conceitos relacionados à influência gravitacional da Lua e do Sol, à variação de amplitude entre marés de sizígia e de quadratura, e a métodos práticos de estimativa, como a Regra dos Doze Avos e a Regra do Terço. Associado às fontes técnicas de consulta, como a Tábua das Marés e os Roteiros de Navegação da Diretoria de Hidrografia e Navegação, esse conhecimento permite antecipar o comportamento das águas em determinado trecho do litoral. No atendimento a incidentes ambientais, essa previsão subsidia a estimativa do deslocamento de substâncias lançadas ao meio aquático e orienta decisões operacionais relacionadas ao posicionamento de barreiras de contenção, ao planejamento de janelas de acesso e à priorização de áreas de resposta, constituindo um elemento relevante para o planejamento das ações de mitigação e limpeza.

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